1006 20/1/2015

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As Franquias Anuais estão Destruindo o Mercado de Games?

Call of Duty. Battlefield. Assassin’s Creed, FIFA, Pro Evolution Soccer.

É difícil sequer começar a listar o número de franquias anuais das grandes empresas. É um modelo de negócio que enche os bolsos e dá muito certo, não? Então, por que se preocupar?

A verdade é que essas grandes franquias estão matando o mercado de games. Não que o mercado morrerá e deixará de existir. É algo muito mais cruel do que isso: elas estão instalando não só um modelo de marketing como também perpetuando uma ideologia errônea que influencia as outras empresas. Uma visão de que apenas assim elas poderão aumentar o lucro exponencialmente e quem sabe até monopolizar o mercado.

Não sejamos tontos, claro. Estamos falando de empresas e o objetivo principal das empresas é conseguir lucro, dinheiro. E é muito mais fácil editar um código anualmente, mudar texturas e vender por cento e cinquenta pilas do que fermentar uma excelente ideia e trabalhar em cima de uma fórmula cujo sucesso é uma incógnita.

Call of Duty protagonizou o novo modelo de negócios do mercado de games.

Mas isso nos leva a um ponto preocupante. Como muitos sabem, a Ubisoft declarou claramente que não investirá em jogos que não possam se transformar em franquias. Declarou que Assassin’s Creed é de fato um jogo anual. Isso é bom?

Peguemos essa série então: Assassin’s Creed era contextualizado com os Hashashin, assassinos judeus durante a Guerra Santa. O jogo tinha um enredo ruim, mas bem ambientado. Três anos depois, o excelentíssimo Assassin’s Creed 2 se passou na época do Renascimento, mudando o cenário, INOVANDO com uma mecânica de mundo aberto e refinando todo o gameplay. Já a sequência, Assassin's Creed II: Brotherhood não passou de um pacote de expansão vendido a preço cheio. E nós compramos. A série era maravilhosa, queríamos consumir mais.

Mas então foi lançado o Revelations. Isso desgastou muito o lançamento de Assassin’s Creed III (que inovou e melhorou muito). Por mais que a agitação do lançamento do jogo tenha sido enorme e o jogo realmente seja bom, com certeza a saudade da franquia e o tempo que tivemos para aproveitá-la teria feito uma espera entre o 2 e o 3 algo muito melhor. E o 4? Está mais pairando ao ceticismo do que à animação.

Call of Duty é um bom jogo. Sabe como contar uma história, sem sombra de dúvidas. A despeito de tudo dito sobre a franquia, Modern Warfare 2 possui uma das melhores campanhas de jogos de tiro e ponto final. Porém, não podemos afastar a ideia de que todos os jogos possuem a modalidade multijogador perigosamente idêntica, e isso leva a pensar se não seria melhor um grande pacote de expansão ao invés de um jogo mais caro do que a média e que apresentará praticamente a mesma experiência do anterior.

Não seria melhor fazer um novo Call of Duty totalmente multiplayer com atualizações regulares e pacotes de expansão com preços modestos? Lançar os jogos com maior intervalo de tempo? Ambos? Provavelmente; tudo é válido para não continuar com esse modelo. Ele gera mais dinheiro a curto prazo, mas a tendência é supersaturar o mercado; e isso tem grandes chances de acabar de maneira negativa para a franquia.

Mario é uma franquia que se mantém sempre fresca por possuir vários tipos de jogos diferentes dentro do mesmo universo. Que tal um Call of Duty de estratégia?

E o problema maior não é que esses jogos estão sendo “todos iguais”, ou que estão “inovando pouco” e, tampouco, que são “muito caros”. Tem gente que compra, então o modelo funciona. O grande problema é que eles estão arrastando outras séries para o mesmo buraco! Um exemplo?

Considere os gritos de comemoração com o anúncio de Battlefield 3. Compare com o anúncio do Battlefield 4. Qual dos dois te surpreendeu mais? Te animou mais? Pokémon White 2 foi lançado e não tive nem seis meses de diversão antes de anunciarem o jogo seguinte e, por mais que o mesmo seja absurdamente inovador e vá mudar a série, me preocupa pensar que essa franquia possa estar se “modern warfarizando”.

Franquias são como vinho, mas estão sendo tratadas como suco de uva. Enquanto seria melhor para nós jogadores termos um tempo para sentir saudades de uma série, as empresas começaram a ficar mais descaradas do que nunca e praticamente escrever em nossas mídias “nós queremos seu dinheiro, nada mais.”

Diversos estudantes estão nesse momento sendo ensinados em centenas de universidades a seguirem esses padrões, sendo lobotomizados com a ideia de que deverão lutar para se adaptar a esse mercado e não tentar muda-lo para melhor. Enquanto jogos independentes não são uma fonte rentável - e tampouco segura -, eles são nossa principal fonte de saída desse universo “mainstream” em que estamos vivendo. É uma questão de parar para se pensar em quando se era só um jogador. O que os desenvolvedores gostariam de jogar antes de entrar no mercado? Jogos fotocopiados descaradamente lançados vez após vez por preços salgados ou jogos baratos, divertidos e inteligentes? Claro que precisamos de vez em quando dessas mecânicas mais conhecidas e vendidas. Não nego, são provavelmente as mais divertidas! A questão aqui é se realmente deveriam sofrer toda essa exploração sem tempo de respirar. Os desenvolvedores precisam se imaginar como os próprios consumidores e se esforçar para se preocupar com o que eles pensarão. As empresas precisam se afastar dessa mentalidade de capitalismo selvagem.

Jogos são arte, não são? Então reflita por um segundo... deveríamos tomar como nosso Da Vinci Jonnathan Blow, criador de Braid ou a Infinity Ward, desenvolvedora dos Modern Warfare? Edmund McMillen, criador de Super Meat Boy ou a EA Sports?

Afinal de contas, arte não é sobre agradar nossos olhos. É sobre mandar uma mensagem, inspirar mentes alheias, delinear significados e criticar. É sobre promover um momento de introspecção.

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