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O Tópico Utópico: A Utopia e Distopia dos Jogos

Você conhece ou já ouviu falar sobre a palavra utopia? E distopia? Provavelmente sim. Agora, esses dois termos estão mais presentes nos jogos do que se imagina. Pois é, de uma forma resumida a utopia representa a imagem de uma sociedade perfeita criada em nossa imaginação. A distopia é exatamente o contrário disso, uma sociedade rachada e imoral. Através desse artigo eu tentarei explicar mais detalhes sobre o significado dessas palavras e apresentar alguns exemplos aplicados em nossos tão queridos jogos - e alguns filmes também. Vamos, então, a umas definições mais teóricas para compreendermos suas representações nos jogos.

A Origem - Utopia


Em Londres, no dia 7 de fevereiro de 1478, nascia Thomas More. Um homem de muitas funções - advogado, diplomata, escritor - que ocupou muitos cargos públicos e até hoje é considerado um dos grandes humanistas do Renascimento. Sua importância era tamanha, que em 19 de maio 1935 foi canonizado como santo da Igreja Católica.

Sendo também um escritor, More assinou várias obras de extrema importância, entre elas A Apologia, A Agonia de Cristo, Orações e Súplica das Almas. Mas sua obra mais famosa foi escrita em 1516 e intitulada de Utopia.

Originada do grego oú tóttoç - "não-lugar" ou "lugar que não existe" - a palavra utopia nos traz a idealização fantasiosa do perfeito e ideal, tendo sua aplicação comumente usada na ideia de sociedade ou civilização; e sua base a sociedade atual. Era exatamente sobre isso que se tratava a criação de Thomas: uma ilha-reino européia chamada Utopia, que acolhe uma sociedade considerada perfeita e sem diferenças. Essa sociedade reflete o bem-estar do ser humano e é vista como sátira da Europa do século XVI por ser uma crítica do próprio autor sobre os problemas políticos e econômicos de seu tempo.

A utopia pode ser dividida entre cinco tipos:

  • Moderna
  • Política
  • Religiosa
  • Econômica
  • Ecologista

Representação da capa original de Utopia.                           

A Origem - Distopia


Seguindo o conceito inverso de utopia, a distopia - também chamada de utopia negativa - apresenta uma sociedade corruptível e distorcida, onde a tecnologia é usada como forma de controlar o Estado ou até mesmo grandes corporações. Sua origem vem de um discurso feito por John Stuart Mill no Parlamento Britânico em 1868, onde Mill disse:

É, provavelmente, demasiado elogioso chamá-los utópicos; deveriam em vez disso ser chamados dis-tópicos. O que é comumente chamado utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável.

Com essas palavras, Mill considerou distopia como algo ruim. A partir disso o termo passou a ser associado como a antítese de utopia e, assim como tal, também pode ser dividida em tipos diferentes - muito mais do que a utopia. Veja abaixo alguns deles:

  • Totalitarista
  • Tecnológica
  • Consumista
  • Religiosa
  • Moral
  • Cibernética
  • Criminosa
  • Militar
  • Pós-apocalíptica
  • etc

A maior parte dos modelos acima foram usados ou criados no cinema. Filmes como Dark City - Cidade das Sombras, Dredd, Laranja Mecânica, Planeta dos Macacos e Matrix abordam esses conceitos. Mas eles não limitam-se apenas a habitar o mundo cinematográfico, existem muitos jogos que representam formas variadas de utopia e distopia. E através disso chegamos a 4 tipos de aplicação:

Aplicação 1




Um dos jogos mais inteligentes dos últimos anos, Bioshock é, por si só, o melhor exemplo para iniciarmos este tópico. Isso porque o jogo representa uma utopia que se torna distópica, ou seja: temos os dois modelos de sociedade implantados em apenas uma trama. A começar pelo nome, Bioshock, uma expressão inexistente que pode ser traduzido literalmente para Abalo Biológico. Este título forte já nos serve uma série de interpretações e questionamentos sobre o que é necessário para chegar a esse ponto.

Um homem pode escolher. Eu escolhi o impossível. Construí uma cidade na qual o artista não teria que temer a censura. Aonde os grandes não seriam constrangidos pelos pequenos. Aonde os cientistas não estariam limitados pela moralidade. Eu escolhi construir... Rapture.

Com as palavras de Andrew Ryan, somos apresentados à ousadia de um magnata que visa escapar das garras da política, da religião, da censura e do socialismo. Um homem que almeja ser livre de amarras morais e sociais, sonhando alcançar sua própria filosofia de vida. Esse sonho torna-se concreto na forma de uma cidade submersa chamada de Rapture. Um nome digno ao seu significado, em causar uma ruptura nas estruturas levantadas pela civilização que ele conhecia.

Rapture foi inspirada em Atlanta e construída em 1956, tornando-se um lugar onde não existem deuses, apenas homens. Um lugar sem pessoas cegadas pela religião. Um lugar onde a ciência corre livremente, sem medo da censura de pessoas mesquinhas. Onde as mentes mais brilhantes - selecionadas pelo próprio Ryan - habitam sem questionar a revolução. Criou-se, assim, uma utopia.

A principal atividade econômica da cidade se dava através da venda de produtos criados com um parasita aquático apelidado de ADAM, que ampliava as capacidades físicas e mentais de seu consumidor, além de curar enfermidades. E o avanço de Rapture foi tão repentino que foi preciso uma hierarquia de tarefas e ocupações, criando empregos menores do que os anteriormente propostos. Muitos tentaram abandonar a cidade, mas foram proibidos por Ryan , o que gerou discórdia, inveja e oposição dos habitantes, dando início aos tempos distópicos.

Mas minha cidade foi traída pelos fracos. Então eu te pergunto, meu amigo. Se sua vida fosse um prêmio você mataria os inocentes? Você sacrificaria sua humanidade? Todos nós fazemos escolhas, mas no final nossas escolhas fazem quem somos.

Para acabar de vez com toda a sociedade planejada por Andrew Ryan, o soro extraído do ADAM - chamado de EVE - estava alterando geneticamente as pessoas e lhe dando poderes extraordinários, mas o consumo contínuo desse produto alterava a mentalidade do usuário, tornando-o descontrolado e até mesmo deformado. O detalhe que faltava para a queda de Rapture.

Como dito anteriormente, o cinema já utilizou e ainda utiliza a temática da utopia e distopia. Muitos jogos e filmes possuem uma relação forte entre si devido a essas mesmas ideologias, então que tal compararmos os exemplos de jogos citados com filmes de igual pensamento?

No caso de Bioshock temos um início a partir de um sistema revolucionário, aparentemente perfeito e distante de falhas, portanto um sistema utópico. Mas um sistema que sai de controle e torna-se rapidamente distópico. Entrando no mundo do cinema podemos conectar esses fatores a Jurassic Park.

Neste filme de 1993, um magnata chamado John Hammond - que, neste caso, assume o papel de Andrew Ryan - constrói um parque temático onde clones de dinossauros seriam a atração principal. Um projeto audacioso e espantoso, almejando alcançar algo jamais alcançado pela sociedade. O Parque dos Dinossauros é a nossa Rapture. Logo depois algo sai errado e tudo que foi brilhantemente arquitetado torna-se uma luta pela sobrevivência, tendo assim o mesmo destino da cidade submersa.

Bioshock e Jurassic Park são utopias que se tornam distopias.

Aplicação 2


Eu nasci em Moscou. Mas não me recordo de nada desse tempo. Eu era apenas uma criança quando o antigo mundo foi destruído em chamas de fogo nuclear. Eu, junto com outros 40.000, nos salvamos recuando às estações de metrô no subterrâneo da cidade.

Uma guerra nuclear iniciada em 2013 contra a Rússia devasta todo o país e torna seu ar rarefeito, obrigando aos sobreviventes inciarem uma nova vida no cenário pós-apocalíptico recém-criado. Para que essa mudança aconteça, todos passam a habitar os metrôs em uma tentativa de se adaptarem ao novo mundo em busca de alguma esperança.

Esta é a trama de Metro 2033, um jogo baseado no livro homônimo escrito pelo autor russo Dmitriy Glukhovskiy. O medo das armas nucleares dos anos 50 pode ter sido uma grande inspiração para a criação da história, a qual tem como principais temas abordados o desejo de renovação, a sobrevivência e a difícil adaptação do ser humano em um ambiente distorcido. Esse ambiente retrata os subterrâneos da Rússia - mais precisamente em Moscou, cidade onde se passa o jogo -, locais que servem como um forçado habitat. Os russos iniciam assim uma sociedade subterrânea, obrigada a conviver com o medo da morte e da irreconhecível superfície.

Além do ar irrespirável do mundo externo, outras ameaças surgem na forma de criaturas nascidas da extrema radiação. Mas não apenas monstros fazem dessa civilização reinventada um teste de sobrevivência, pois os próprios humanos representam um perigo social. Colônias totalmente abandonadas, sem perseverança e desenvolvimento, criaram pessoas ignorantes e desprovidas de educação. Pessoas que não sabem discernir o certo do errado e nem possuem valor moral. Bandidos, estupradores, assassinos, torturadores, fascistas. A periculosidade existe como em qualquer sociedade de estrutura convencional.

É uma civilização de sobreviventes que tenta se adaptar em outro ambiente após uma guerra destruir o mundo que antes conhecíamos. Levando à sétima arte, esta sinopse pode facilmente nos remeter a Matrix.

 Lançado em 1999, Matrix nos trouxe um novo conceito de sociedade: a sociedade artificial. E não falo apenas do mundo virtual da Matrix, refiro-me também aos habitantes de Zion, local que serviu de moradia aos sobreviventes da guerra contra as máquinas. Um lugar que ocupa o mesmo papel do metrô de Metro 2033.

Humanos sendo confrontados e eliminados por suas próprias invenções. O que vemos no jogo são armas nucleares exterminando nosso modo de vida, enquanto no filme temos a inteligência artificial realizando esta façanha.

No caso de Metro 2033 e Matrix temos somente distopia.

Aplicação 3



Como assim? Outro Bioshock nessa lista? Pois é, com ele iniciamos esse artigo trazendo um exemplo de utopia que se torna distopia, mas dessa vez o caso é outro.

Bioshock Infinite, o terceiro jogo da franquia, se passa em 1912 - bem antes dos acontecimentos do primeiro jogo - e nos mostra Columbia, uma cidade flutuante construída sobre as nuvens através de levitação quântica, dirigíveis e balões. Diferente do segredo imposto em Rapture, Columbia foi criada em 1893 pelo Governo Estadunidense e obteve muita publicidade. A ideia era utilizar a cidade para representar o Excepcionalismo Americano, seguindo uma teoria que afirma que os EUA são qualitativamente diferentes de outras nações. Criou-se, então, uma sociedade literalmente superior; uma civilização que habita o céu.

A religião é o fator mais forte de Columbia, onde a entrada é apenas permitida se o visitante passar pelo processo de batismo, e o principal símbolo religioso da cidade fica por conta de Comstock, chamado de "O Profeta" ou "Pai Comstock". Seu apelido se deve ao fato das suas afirmações em conseguir prever o futuro da cidade e punir ações de falsos profetas.

Então, o que temos é a construção de uma ideia social onde pessoas representam o poder absoluto americano e sua prosperidade enquanto são guiadas pela religião como fator moral. Isso é uma utopia, certo? Bem, seria apenas uma utopia se tudo não passasse de uma fachada para julgamentos raciais e xenofóbicos.

Em Columbia, apenas os legítimos americanos brancos são aceitos. Negros, orientais ou qualquer outra raça são punidos e humilhados publicamente, sendo visto apenas como simples servos de seus patrões. Até mesmo os atos religiosos, tão importantes, são vistos como alvos. Neste caso, o cristianismo.

Isso tudo causa uma ambiguidade no simbolismo adotado pela cidade. Enquanto, para os brancos e seguidores de Comstock, Columbia representa utopia, para outras é uma distopia sem tamanho. Para ser um ou outro, depende apenas do ponto de vista.

A utopia é apenas enxergada pelos cidadãos que se encaixam nas regras da sociedade e esse ponto de vista existente em ambos os lados é muito semelhante ao que podemos ver no filme Metrópolis.

Produzido na Alemanha em 1927, o filme se passa em um fantasioso século XXI onde Joh Fredersen, um poderoso empresário, governa uma cidade que representa a pirâmide social. Enquanto a classe privilegiada vive em um ambiente perfeito - que seria o topo da pirâmide -, os operários ficam em meio a miséria, junto das máquinas, enquanto trabalham para que a cidade funcione.

A utopia existe, mas somente para o topo de Metrópolis. Em sua base temos a distopia de uma sociedade carente de cuidado.

São justamente essas diferenças visual e social que tornam Bioshock Infinite e Metrópolis obras que apresentam utopia e distopia simultâneas.

Aplicação 4



A última forma de aplicação é um pouco diferente. Em SimCity o jogador é o responsável por construir e comandar uma cidade, definindo suas estruturas, sua economia, política e sociedade. Estamos falando aqui de um cenário onde não existe utopia e nem distopia. Quer dizer, elas existem; mas não em um primeiro momento.

SimCity pertence aos grupos dos God Games, jogos que permitem ser controlados em grandes escalas e o próprio jogador decide o destino de determinada civilização. A cidade pode ser próspera, com belos pontos turísticos, uma economia equilibrada, uma política exemplar e cidadãos bem ajustados. Nesta situação, o jogador lida com uma utopia criada por ele, o mesmo que define se essa utopia vai se manter ou não.

Se for definido um novo rumo para aquela civilização, o gerador de caos pode ser ativado e criar desastres naturais como tornados, terremos e erupções vulcânicas. Os moradores podem tornar-se violentos, originando manifestações e vandalismos. Os níveis de incêndios e criminalidade podem subir consideravelmente e até mesmo eventos inesperados, como uma invasão alienígena, podem ocorrer. Pronto! O jogador tem a sua cidade desestruturada e distópica.

SimCity não é um jogo utópico e nem distópico. O que a cidade se torna fica a cargo do próprio jogador, podendo ser incrivelmente ideal ou totalmente desestruturada.

Dessa vez não haverá comparação com nenhum filme, por ser algo sem roteiro definido e dependente da escolha de terceiros. Temos então um jogo com utopia e distopia neutras.

Finalizando

As quatro possíveis aplicações de utopia e distopia nos jogos foram apresentadas, acompanhadas de algumas comparações com filmes de ideias semelhantes. Mas espere aí! Está faltando um exemplo de somente utopia. Esse é o problema. Por mais que existam filmes somente utópicos, não encontrei um jogo que também focasse apenas nesse conceito. Se alguém descobrir algo, por favor, envie um comentário sobre o jogo e vamos continuar essa discussão em nosso fórum.

Espero que tenham gostado. Até a próxima!

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